O documentário “Entorno da Beleza” finca bandeira exatamente no meio do caminho entre a crítica ao culto da beleza e a simples reprodução de um conto de fadas. Exibido na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o filme de Dácia Ibiapina começa bem ao apresentar os bastidores de um concurso de beleza na região de Estrutural, no Distrito Federal, exibindo o universo fake e machista que envolve a idealização da mulher perfeita.
As participantes são garotas pobres que buscam o reconhecimento, mas a cineasta não se mostra muito interessada em radiografar os motivos que as levam a exibir o corpo numa passarela para julgamento. Nunca se ouve, por exemplo, que o concurso pode significar a passagem de saída de um bairro miserável e a ascensão social. Aliás, não se pode dizer que são “entrevistadas”, já que são raros os momentos em que há uma conversa da diretora com elas sobre o ambiente ou suas dificuldades.
Dácia explicitamente opta por poupá-las, não fazendo escárnio a partir delas. A crítica se sustenta no entorno, nesta máquina que reproduz valores machistas e conceitos vagos de perfeição e beleza. O ridículo está, por exemplo, na observação autoritária de uma coordenadora para as candidatas, dizendo que elas devem obedecer rigidamente cada regra, numa posição servil que pode ser muito bem estendido à condição social, que não é escondida, embora não verbalizada.
Arquivos Mensais:fevereiro 2012
Ser Político, crítica da Revista Cinética
Concluindo a cobertura da Revista Cinética da 15ª, Fábio Andrade publica a crítica sobre os filmes “Entorno da Beleza” e “A Cidade é Uma Só”. Confira alguns trechos do artigo.
É interessante reunir em um mesmo texto filmes como Entorno da Beleza, de Dácia Ibiapina, e A Cidade é uma Só?, de Adirley Queirós. Antes de mais nada, por serem filmes feitos por um mesmo grupo, como comentado pela própria Dácia no debate sobre seu filme em Tiradentes – debate, como o do filme de Adirley Queirós, muito interessante justamente por ambos os diretores falarem de um lugar bastante diferente da maior parte dos realizadores presentes em Tiradentes, com outro vocabulário, outras inquietações, outras questões. Mas “grupo”, aqui, precisa ser desvinculado do caráter coletivo que o termo assumiu no cinema brasileiro nos últimos anos, e que muitas vezes atrapalha o contato com os próprios filmes. O que parece haver, aqui, é sobretudo um sentido de continuidade – mesmo que um tanto descontínua – de diretores que, vindos de um mesmo lugar (o Distrito Federal), usam seus filmes também como uma forma de conversa, de responder um ao outro e de avançar assuntos já colocados em pauta. Entorno da Beleza, por exemplo, parece de alguma maneira movimentado por Fora de Campo, filme anterior de Adirley Queirós, feito para o DocTV. Lá, o foco estava em jogadores de futebol da segunda divisão do Distrito Federal e, embora Fora de Campo fosse, essencialmente, um filme de personagens, uma força centrífuga parecia agir sobre elas, como uma estrutura externa que os amarrava a uma determinada condição e que assinava sua tragédia. Para revelar essa estrutura, o diretor usava uma abordagem mais convencional de documentário de personagens, sem deixar de, com isso, apontar para o tal “fora de campo” (com duplo sentido) que os determinava. Era um filme de personagens dentro de um contexto social.
Entorno da Beleza, ao contrário, parece ir diretamente a essa estrutura, no caso, os concursos de miss do Distrito Federal. Há uma narrativa de ascenção, mas principalmente um processo de descarte: se não sobram personagens claramente identificáveis ou relacionáveis ao final de Entorno da Beleza, se não temos chance de conhecê-los ou compreendê-los em maior profundidade, é porque de certa forma é isso que todo aquele processo de triagem faz com aquelas meninas. Das várias candidatas, sobra uma vencedora, mas esta vencedora não é mais ou menos personagem do que as outras; todas elas foram igualmente triturados por aquele gigantesco moedor de particularidades. Entorno da Beleza não é sobre a vencedora, nem sobre as perdedoras, mas sim sobre o próprio processo de eliminação. É um filme de casting.
Aí talvez esteja o ponto mais interessante do filme, pois, em uma produção documentária muito firmemente calcada no “dar a voz”, em uma câmera que muitas vezes se coloca como justiceira social, Entorno da Beleza parece se concentrar justamente na ausência de voz que é garantida – e buscada – por uma estrutura externa de controle (o concurso de miss) e que o filme não tem medo de assumir também para si. O maior valor do filme está justamente em não revelar as complexidades imagináveis daquelas personagens – embora uma certa descontração escape aqui e ali – mas sim em se concentrar em revelar a estrutura de controle, tanto a do concurso de miss quanto a do próprio filme. Limando essas particularidades, é como se o filme precisasse se assumir próximo desse processo – igualmente cruel – para, enfim, revelá-lo. Ainda assim, há um equilíbrio curioso, e bastante difícil de se comprovar por procedimentos, entre o respeito às personagens e a crítica a elas, que Dácia Ibiapina consegue equilibrar pela maior parte do filme. Entorno da Beleza é um espelhamento – palavra importante pro documentário – mas o espelho, no caso, reflete a máquina cruel que o filme tenta compreender. É, portanto, um filme perverso.
15ª Mostra de Tiradentes – Matéria no site da UnB
A professora Dácia Ibiapina, da FAC, também concorreu na mostra Aurora em Tiradentes, com o filme Entorno da beleza, que fala do universo feminino a partir de concursos de miss realizados em 2010, em todo o DF. “Na minha opinião, a obra de um professor de cinema é melhor avaliada pela obra de seus alunos do que de seus próprios filmes. Estou comemorando com entusiasmo a premiação de Adirley Queirós em Tiradentes, como aliás faço com todos os meus alunos e ex-alunos”, afirma. “Gostaria que os prêmios deles acrescentassem pontos ao meu currículo Lattes“, brinca.
A professora orientou o projeto final de Adirley, um filme que também se passa em Ceilândia e arrebatou a plateia do Festival de Brasília de 2005, ganhando os prêmios de júri oficial e popular na categoria curta-metragem: Rap, o canto de Ceilândia. “Ele é um caso bem sucedido de cineasta que está fora do Plano Piloto, onde estão as maiorias dos cineastas. Ele faz questão de dizer que é um cineasta de Ceilandia e a cidade marca toda a obra dele”, conta Dácia.
Entrevista da diretora publicada no Catálogo da 15ª Mostra de Tiradentes
Questões encaminhadas por Leonardo Mecchi e respostas de Dácia Ibiapina, diretora do filme Entorno da Beleza.
1) Fale brevemente sobre sua formação e o caminho que percorreu até chegar a esse filme.
Sou graduada em Engenharia Civil, pela Universidade Federal do Piauí. Foi durante o curso, na segunda metade da década de 1970, que fiz minha iniciação ao cinema e onde conheci outros estudantes universitários que também queriam fazer cinema. Freqüentávamos o Cineclube Teresinense do Colégio Diocesano, onde assistíamos e discutíamos os clássicos do cinema, especialmente os filmes do neorrealismo italiano, pois o Padre Carlos Breschiani, responsável pelo cineclube, era franciscano e italiano. O passo seguinte foi a formação do Grupo Mel de Abelha, que corresponderia hoje a um coletivo de cinema. Os integrantes eram estudantes da Engenharia e fizemos meia dúzia de filmes documentários na bitola S-8. Eles nos levaram às jornadas de cinema super-8 do Maranhão, à Casa Amarela em Fortaleza e às Jornadas de Cinema da Bahia. Esses primeiros filmes eram financiados com uma parte do que recebíamos como Crédito Educativo. Meu primeiro filme como diretora é O Pagode de Amarante, 1986, um doc em S-8 sobre uma festa popular em um bairro negro na cidade de Amarante-PI.
